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Um Oscar mais próximo da realidade.
Premiar quatro estrangeiros e uma ex-stripper é, sem dúvida, um passo adiante.

Em sentido horário: Javier, Diablo, Tilda e Marion. Day-Lewis já é café-com-leite. Fotos: Reuters.
Os quatro estrangeiros: Daniel Day-Lewis (ator), Marion Cotillard (atriz), Javier Bardem (ator coadjuvante) e Tilda Swinton (atriz coadjuvante). A ex-stripper: Diablo Cody (roteiro original por “Juno”). A Academia deixou o cinemão de lado e laureou os atores de verdade, talhados para o ofício. Vamos a eles. Sobre Daniel Day-Lewis, não há muito a dizer, já que o inglês abocanha seu segundo prêmio; o primeiro foi por "Meu Pé Esquerdo", em 1990. Ator extremamente versátil, capaz de interpretar soberbamente qualquer personagem, já é "de casa". Novata, ao menos aqui, é a francesa Marion Cotillard, que dá um show de entrega, inclusive física, para viver Edith Piaf. Ela própria se surpreendeu e ficou muito emocionada ao receber o prêmio, algo bonito de se ver. O filme, embora correto, carece de ousadia, pois é todo feito nos moldes do melodrama consagrado por Hollywood. Cotillard, no entanto, executou um trabalho tão impecável como o de sua equipe de maquiagem, que também levou uma estatueta para casa. A atriz, que não é baixinha e é bem bonita, foi reduzida àquela coisinha mirrada e sem graça que era Piaf (somente no aspecto físico, claro). Gosto quando o Oscar premia o trabalho de técnicos que tiram leite de pedra. O que não foi o caso da categoria figurino, que se impressionou com o luxo extravagante de “Elizabeth” e deixou de fora a sutileza de “Across the Universe”.
O espanhol Bardem já conheço de outros carnavais, há cerca de 15 anos, vendo os filmes malucos de Bigas Luna, como “As Idades de Lulu” e, principalmente, “Ovos de Ouro”. Se você nunca viu Bigas Luna, mas aprecia a anarquia dos primeiros filmes de Almodóvar, vai gostar. Bardem, assim como o outro intérprete vencedor da noite, Daniel Day-Lewis, é um ator visceral. OK, todo mundo fala isso, mas fazer o quê, é a palavra que melhor define seu estilo de atuar. Seu vilão em “Onde os Fracos Nâo Têm Vez” é, no mínimo, saboroso. O prazer que sente ao dar cabo de suas muitas vítimas contagia a platéia.
Bom, e temos a exótica Tilda Swinton, cujo trabalho vi pela primeira vez em “Orlando, a Mulher Imortal”. Pálida, ruiva, dona de uma beleza bastante peculiar, não tive a oportunidade de conferir o filme que a consagrou neste Oscar, mas não tenho a menor dúvida de que mandou bem, pois sempre cumpre o que lhe é solicitado. Gostei muito do seu discurso de agradecimento, bem britânico, um tanto blasé, com aquele sotaque perfeito. E, para completar, estava bem vestida e com o cabelo bacana.
Agora a ex-stripper. Diablo Cody errou feio no figurino, mas acertou no corte de cabelo e, segundo José Wilker, no roteiro de “Juno”, com diálogos excelentes. Vou confiar na opinião do Zé que, embora global, é um sujeito que não se encaixa no padrão vigente na emissora e também é cinéfilo com conhecimento de causa. Aliás, o Zé falou outra coisa com o qual concordo: tanto Bardem quanto Day-Lewis são atores “na medida”, não vão além do que o papel exige (ao contrário de Al Pacino que, nos últimos anos, pecou várias vezes por excesso).
“Onde os Fracos Não Têm Vez” confirmou as previsões e levou, além do prêmio dado a Bardem, Direção, Roteiro Adaptado e Melhor Filme. Merece, é um filmaço, sobre o qual já escrevi neste espaço (vide texto abaixo), e que, para os olhos mais atentos, é um tapa na cara dos EUA e vai muito além de um “western moderno”, como disseram alguns. A animação “Ratatouille” é excelente, já nasceu com status de clássico do gênero. A cena onde o ratinho pula de carrinho em carrinho dentro da cozinha já vale o filme, pela câmera tresloucada e inovadora. Houve vozes que reclamaram da ausência de “Sweeney Todd”, de Tim Burton, e “Senhores do Crime”, de David Cronenberg, das principais categorias. O primeiro levou Direção de Arte e o segundo, foi indicado na categoria de melhor ator com Viggo Mortensen, mas não levou. Registro, aqui, o fato.
E vou falar de uma coisa que talvez poucos mencionem. “O Ultimato Bourne”, do competente Paul Greengrass, levou três prêmios técnicos: Montagem, Efeitos Sonoros e Edição de Som. A série do agente Jason Bourne, com três filmes, é a prova de que é possível unir inteligência e ação no mesmo pacote. Matt Damon está muito bem no papel e, nos dois primeiros filmes, temos a presença da bela alemã Franka Potente (com um visual bem melhor do que em “Corra, Lola, Corra”). O elenco de apoio conta com nomes experientes e carismáticos, como Joan Allen e Brian Cox. Vi o último da série no cinema, numa sala bem equipada, e foi incrível, uma experiência vertiginosa e muito estimulante. Se possível, alugue a série toda em DVD. É diversão garantida.
Este foi o Oscar 2008, amiguinhos. O apresentador, Jon Stewart, ágil, esperto e muito competente. Nicole Kidman, bela e impávida, como sempre. Johnny Depp, mal vestido, como sempre. E Jack Nicholson, sarcástico e divertido. Como sempre.
Escrito por Alessandro Pinesso às 11h06
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